Tecer esse algodão é honrar o tempo
- Teka Moran
- 4 de fev.
- 3 min de leitura

Lembro-me de usar uma manta tecida em tear manual quando era bailarina; recordo-me também de tê-la perdido em algum bastidor escuro de um teatro no Rio de Janeiro. Naquele tempo de dança, eu não fazia a menor ideia do trabalho e da quantidade de horas empregadas para obter uma peça simples e relativamente pequena feita no tear.
Na primeira vez em que vi um tear, havia um cachecol bem colorido em processo de construção e uma mulher de coração enorme tecendo-o. O corpo da mulher e o objeto tear — naquela ocasião montado sobre o chão, comprido e não muito largo — executavam juntos algo parecido com uma dança. Guardo comigo essa memória; talvez a trama dessa lembrança já tenha se desfiado um pouco, mas garanto que o urdume permanece intacto. Essa mulher é hoje uma amiga muito próxima, e foi ela quem me ensinou o que sei até o momento sobre a tecelagem: minha querida Laura Valadão, atriz, tecelã, cantora e artista.

Tenho dois teares. O primeiro, com 40 cm, adquiri de segunda mão de uma tecelã. O outro tem 80 cm de largura e pertencia a uma aluna que se tornou minha amiga. Até agora, fiz apenas duas peças completas, uma em cada tear. A que mais uso em casa é este caminho de mesa, feito no tear menor com barbante de algodão e tingido, posteriormente, em um degradê de tons de verde.

A outra peça fiz no tear maior, com o mesmo barbante; no entanto, o fio foi tingido com índigo japonês antes da tecelagem.

Neste novo projeto que compartilho agora, utilizarei as duas técnicas de tingimento. A ideia é tecer seis jogos americanos com o fio Barroco Natural n.º 6, da Círculo, e tingi-los com índigo vegetal a posteriori, criando um degradê em tons de azul ou padrões em shibori (assunto para outro post, me lembrem!). Depois, pretendo tecer mais seis jogos, porém utilizando fios previamente tingidos com o índigo vegetal.

Ando estudando mais sobre teares e me deparo com todo tipo de informação na internet: desde conteúdos históricos a excelentes tutoriais sobre como passar os fios do urdume, calcular a quantidade e o comprimento dos fios, considerando perdas, tamanho desejado para o trabalho final e franjas.
No ano de 2025 participei de um curso de conservação têxtil voltado à curadoria e preservação de peças históricas. Durante a formação, estudamos diferentes tipos de teares, mas o que mais me marcou foi o tear de Jacquard. Ele permitia, por meio de cartões perfurados, tecer padrões altamente complexos de forma automatizada. Recentemente me deparei com a informação de que o conceito do computador moderno teve origem nesse mecanismo: os furos (ou a ausência deles) nos cartões funcionavam como um sistema binário de '0' e '1', servindo de base para os sistemas computacionais que conhecemos hoje.
Se desejar saber mais sobre esse tipo de tear e sobre essa história ligada com a computação, indico o artigo deste link. Está em inglês, mas pode ser possível traduzir utilizando esta função em seu navegador.
Obrigada e até o próximo blog post!
Teka Moran
Criopia casa de ideias 2026
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